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terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Ioga - filosofia da educação abismal

O poeta Carlos Drumond de Andrade, num de seus belos poemas, nos descreve a odisseia do homem em suas conquistas espaciais. Colonizou todo os sistema solar e ainda se lançou a outros sistemas, mas o tédio sempre o acompanhava. Quando nada mais restava para civilizar, voltou-se para o próprio universo pessoal e nunca mais teve tédio.

Também há algo parecido no seguinte trecho de Vivekananda: "sabe, ó homem, que depois de longas buscas, aqui e acolá, em templos e igrejas, em terras e céus, finalmente regressa para dentro da sua própria alma, completando o círculo por onde começaste. Aí descobrirás que Ele, por quem estivestes procurando por toda parte, por quem chorastes e orastes em igrejas e templos, com quem estivestes contando como o mistério dos mistérios, envolto nas nuvens, está mais perto do mais próximo. É o seu próprio ser, a realidade da tua vida, de teu corpo e de tua alma".

A nossa civilização, caracteristicamente objetiva, voltada para o mundo exterior, forma um homem interiormente insatisfeito.

A conquista de uma dimensão interior, como já se vem conseguindo da dimensão exterior, se tornou o principal problema do humanismo ocidental.

Na ciência Ioga encontramos um conjunto de técnicas destinadas a concretizar este relacionamento do homem com a sua própria essência. Nela encontramos uma série de execícios psicofísicos, sendo 60% de concentração mental, 30% de respiração e apenas 10% de movimento.

O principal trabalho da ioga é, como já se disse, a concentração mental.  Os exercícios de interiorização impõem-se como uma necessidade inadiável para nós do ocidente.

A conjugação, no mesmo plano, da visão clara do cientista com a sensibilidade elevada do artista e o sentimento superior do religioso, eis o que significa ioga.

Faz-se ioga em qualquer tipo de educação, mesmo na formação religiosa, mas a dimensão incomensurável de seu objeto - a busca do absoluto, do universal - evidencia a dificuldade, quiçá a infinitude, da sua realização.

(by Silvio Menezes)

Leitura sugerida: "Ioga, caminho para Deus" - Hermógenes

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Ouso, logo, decido.

“ O que em vós escapa ao tempo sabe que a vida também escapa ao tempo.
(...) E não é o tempo, exatamente como o amor, indivisível e insondável ? ”   Kalil Gibran

É bem certo que nada está imune à ação do tempo. Com o seu passar, tudo muda. Comigo não sucede diferente. Como ser humano que sou, tenho que me adaptar à temporalidade do mundo, em todos os seus aspectos, para não ficar desatualizado, ultrapassado, em desacordo com a auto-transcendência cambiante.

Assim, por estar sujeito ao influxo do tempo, preciso acompanhar a evolução do amor, de modo que o meu senso crítico mantenha compatibilidade com as transformações humanas - que nem sempre querem significar progresso nesta seara.

O caminho para tal atualização? Não poderia ser outro senão a ousadia. Através deste predicado raro, secundário, derivado, substituo sentimentos ultrapassados, principalmente os mal aproveitados por seus destinatários, sempre dentro de limites e pressupostos adrede traçados pelo bom senso.

Em última análise, a lição que ficará será a da idéia moral da evolução do ser, a qual deixo preservada neste breve recuo a Kalil Gibran.

Então, ouso. E decido!

Decido. Decido errado, mas decido.

Não fico esperando, prostrado numa torre de marfim, a felicidade vir ao meu encontro. Ela não virá. Maomé percebeu isso há 1.300 anos ... e foi até a montanha.
(by Silvio Menezes)

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

O 5º ciclo

“Triste época! É mais fácil desintegrar um átomo que um preconceito.” (Albert Einstein)


Gostaria, hoje, de escrever algo diferente. Algo singelo, espontâneo, positivo, a fim de acelerar corações, comover olhares, brilhar sorrisos, ungindo todos com a sensibilidade edificante que eterniza instantes.

Gostaria de afirmar ser este ano de 2011, penúltimo  do 5º ciclo terrestre na cosmologia maia, o vanguardeiro da consciência de estarmos a transitar para um novo tempo, em que mais e mais se aperfeiçoará o processo evolutivo, com o triunfo da transparência de comportamento e a crescente assunção do mérito, para gáudio dos que pautam a vida numa linha de verticalidade.

A imaginação é, realmente, a voz do atrevimento, não?

Impedido, pois, de perfilhar esta trilha de idealismo, contentei-me em redigir um texto mais simples, porém, não o mais simples. Se bem que isso pouca diferença fará nos próximos 5.125 anos.

Ademais, há muito abandonei os caminhos traçados. Eles conduzem somente até onde outros já foram. Descobri que o importante de verdade na vida não são os objetivos a que nos propomos, mas os caminhos que seguimos para consegui-los. Não que eu necessariamente prefira caminhos novos; a mim basta um jeito novo de caminhar.

É que não gosto de cometer erros antigos, quando há tantos erros novos a escolher. Por acreditar firmemente que se alguém está fazendo algo da mesma maneira, há anos, provavelmente o está fazendo errado, é que entendo a dinâmica da vida. Esta, por excelência, me impede de ser escravo da própria identidade. Nesse passo, quando surge a possibilidade de mudar, preciso mudar, e mudo. Afinal, a vitalidade se revela não apenas na capacidade de resistir, mas, também, na de começar tudo de novo. 

Assim, prefiro os erros do entusiasmo à indiferença da sabedoria. O que me leva à experiência, que, por definição, não é o que me acontece, mas o que faço com o que me acontece.

Por ora basta. Trouxe à baila tais propósitos justamente para lavrar um texto aparentemente simples, porém de alta relevância.

É chegada a hora de encarar, com devido realismo, a realidade. O tempo rápido flui, nossas vidas comprimidas pela carga nada leve da luta pela sobrevivência esvai-se, não cabendo à grande maioria dos mortais a chance de conhecer, verdadeiramente, a vida e, consequentemente, a felicidade.

Um suspiro para o que foi, um sorriso para o que será: eis a vida. É que viver ultrapassa qualquer entendimento, pois as coisas da vida são sempre simples.

A felicidade, esta, é uma conquista pessoal. Os outros podem, até, torcer, desejar de coração ... Mas só você pode querer e fazer seus desejos se realizarem, tornando-se, por certo, um indivíduo feliz.

Preocupa-me, cada vez com maior clarividência, que tais conceitos não sejam por todos compartilhados. Vivemos sob o mesmo céu, mas, infelizmente, nem todos vêem o mesmo horizonte. É chocante constatar que há quem passe pela floresta e só veja lenha para fogueira.

Com um mundo assim, que se faz deserto, tenho sede de companhia. Eu, que acredito profundamente nas relações, na interdependência como forma de atingir a harmonia e a beleza do ser.

O poeta C.D. de Andrade, num de seus poemas, nos descreve a odisséia do homem em suas conquistas espaciais. Colonizou todo o sistema solar e ainda se lançou a outros sistemas. Mas o tédio sempre o acompanhava. Quando mais nada restava para civilizar, voltou-se para o próprio universo pessoal e nunca mais teve tédio.

Como ser poeta não é minha ambição, é a minha maneira de estar sozinho, sofro, porque, às vezes, é difícil ir contra instintos primários. E o homem é, instintivamente, um ser social.

Apraz-me saber ao menos que, de tantas esperanças ruídas, ainda há um oásis no deserto que sou.
(by Silvio Menezes)

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

O caminho da insensatez

Eu finjo.

Finjo muito.

Eu finjo compreender o amor. 

Enquanto ela insiste em atingir o futuro sem construir o necessário passado, eu finjo compreendê-lo.

Sim. Porque não é fácil; o amor é muito difícil de ser compreendido.

Desde que me encontrei no brilho daquele olhar, brotou do meu ser uma força selvagem contra a qual nada pode a inteligência superior de um homem que se acreditava racional.

Então finjo compreender o amor, sobrevivendo ao seu lado, tentando não desistir de respeitar seus medos e os frágeis argumentos de uma mulher que sabe exatamente o que quer.

E assim, alimentando-me nessa perspectiva diferente, crendo que sua causa pode ser única, que, igualmente a ela, tornei-me também refém da insensatez.

Talvez por isso minha existência continue vazia e a cada novo passo me convença de que nada é exatamente o que parece ser; as pessoas não são, ela não é. Meus dias têm se resumido num mero plágio de vida, um ocaso donde, receio, só a desolação sobreviverá.

Na crença de que todos nós um dia deciframos nossos enigmas, sigo fingindo compreender o amor.

(by Silvio Menezes)

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Delta

Esse mundo é um grande teatro. Como tal, é composto por alguns diretores, muitos atores e uma multidão de espectadores.

Na platéia estão os espectadores, o grosso da humanidade, vivendo essa existência num só objetivo: ver e aplaudir.

No palco, os atores - aqueles indivíduos que, efetivamente, são os responsáveis pela evolução do universo, tranformando o dia-a-dia - encenam esta maravilhosa peça que é a vida.

Os diretores são aqueles que nasceram para orientar, estimular, criar as condições necessárias à atuação dos atores, fazendo com que estes dêem tudo de si, tornando a representação mais proveitosa e expressiva.

Aos diretores. A estes é que deveriam ser dirigidos todos os aplausos, porque o sucesso da vida, digo da peça, depende do seu talento, perspicácia, doação.

Nesse teatro as funções estão bem definidas e, por isso, não deve haver confusão nem acúmulo. Quem nasce diretor não deve se arvorar a encenar; quem, substancialmente, é ator não pode querer dirigir ou aplaudir. Assim,  o espetáculo o será por natureza.

Ultimamente tenho sido um ator mediano, daqueles que vivem em função da platéia.

Mas agora sinto que o estrelato se aproxima. É que, felizmente, fui descoberto por uma diretora capaz de entender as minhas aspirações mais íntimas.

Então, é questão de tempo. Só preciso esperar mais um pouco, dar um tempo para que ela exercite a influência que tem sobre mim e  . . .
(by Silvio Menezes)

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

O amor em perspectiva


Sempre acreditei que para uma relação de amor se desenvolver adequadamente era necessário que seus integrantes  "se percebessem"  o melhor possível.  Esta percepção, despida de preconceitos, deveria abranger, o melhor possível, o maior número de informações sobre o objeto do nosso amor.

Percepções ... informações ... preconceitos ... Fala-se muito em amor, mas, afinal, o que é o amor ?!

As pessoa têm diferentes padrões de amor, por isso não é fácil descrever o amor de forma clara e objetiva. O amor pode ser entendido como encantamento (satisfação total), como adequação ao eu, como enfoque sistemático para a auto-transcendência, a verdadeira expressão do relacionamento a dois e, até, como um ciclo, sem fim, de melhoria espiritual.

Mesmo sendo tão difícil descreve-lo, raramente temos dúvidas quando experimentamos amores superiores ou inferiores. A questão é que nem sempre sabemos lidar com eles, ora decidindo-os com base em opinião exclusivamente subjetiva, ora em se deixando determinar pela situação.

Mas porque será que isso acontece ?!

Creio firmemente que não é apenas a qualidade do amor que importa; a qualidade das pessoas que o fazem é igualmente crucial, porque a qualidade do amor depende dos esforços de cada indivíduo. A qualidade pessoal é a base de todas as outras qualidade.

Presta-se pouquíssima atenção à qualidade das pessoas. Os esforços individuais são determinantes para o sucesso da vida a dois, posto que balisam a percepção dos namorados. E não seria esta um quase sinônimo do caminho do amor ?!

Por isso, cada vez mais, o relacionamento é fundamental, pois só através dele é feita uma perspectiva detalhada de como serão desenvolvidas as etapas seguintes do namoro. Nele são definidos procedimentos a serem adotados, estratégias de concessões, etc ... Não é uma parte do aprendizado do amor a ser descartada com rapidez, nem se pode deixar que  "na hora, vejo o que acontece",  pois o que pode acontecer é um choque de objetivos incontornável.

Um relacionamento falho neste sentido impede a transmissão de conteúdo (o amor) ou prejudica o alcance de outros objetivos de ordem não apenas sentimental (como a carreira profissional, por exemplo). A falha no plano de relacionamento pode estar em detalhes que não são tão pequenos assim, tendo em vista o quanto podem atrapalhar.

Numa abordagem sistêmica, o encontro de duas vidas carecedor de relacionamento não tem feedback, retroalimentação. É importante estar sob avaliação contínua, um do outro, para que à medida que o relacionamento nos dê informações possamos detectar falhas e corrigí-las, incorporando seus resultados às positividades já existentes. Dessa forma estaríamos usando o feedback, suporte ímpar para o atingimento da unidade, em decorrência de uma interação contínua.

- Eu ajo desta forma e, não obstante, continuo a falhar ao buscar o amor.  Poderiam, alguns, objetar.

Primeiramente, o que praticamos é, ontologicamente, um relacionamento  ?!

Segundo, sabemos bem o que estamos procurando ?!  Laurence J. Peter disse, em The Peter Principle, que  "se você não sabe para onde está indo, provavelmente vai acabar em outro lugar".

Terceiro, temos consciência do que é um compromisso emocional ?!  Este, invariavelmente, nos faz fechar os olhos e a mente para a desconfortável distância afinitiva que nos separa do outro, a qual, com o tempo, se torna irresistivelmente perturbadora.

Talvez as respostas a estas indagações justifique  o fato de muitos casais abortarem a jornada tão precocemente.

Mas isso, ainda, não é o fim do mundo. Todos, em algum momento, nos desviamos do caminho; até o sol já alterou sua rota. Entretanto, ao contrário do astro rei, precisamos e podemos voltar à trajetória original.

Fomos ensinados a não admitir nossos fracassos, a não alardear abertamente nossas realizações mais positivas, a mentir a respeito de nossos sentimentos ... Não por outro motivo, sempre que as naturais circunstâncias da vida nos impelem contra comportamentos desta natureza recorremos a manobras pouco recomendáveis, inenarráveis por vezes,  quando o assunto é o coração.

Você já se perguntou se a impossibilidade de viver plenamente uma paixão é um estado temporário ou uma característica permanente ?! Alguns psicólogos acreditam que apenas uma fina camada de socialização impede que nosso Id - a criança interior impulsionada por instintos dentro de nós - agarre o que quer e faça birra quando não consegue que as coisas sejam do nosso jeito, como fazíamos quando éramos pequenos.

É, a dita impossibilidade, um traço opcional ou não-opcional ?! Algumas coisas você controla, outras coisas o controlam.

Que peso você atribui aos seguintes traços: 
1. Compromisso Emocional,  o vínculo que cega; 
2. Defesa, o meio mais rápido de bloquear a mente; 
3. Histórico Socio-econômico do parceiro; e
4. Satisfação Recíproca.

Responda a si mesmo, apenas. Nada de interlocutores. Agindo assim estará afastando a indesejável possibilidade de dissonância cognitiva; talvez a mais nociva forma de pensamento ilusório.

Após se responder, você provavelmente concluirá que não tem sido inteligente o suficiente e, pior, está exigindo demais do outro. Atingindo esse estágio de humildade, aproveite o momento para repensar sua caminhada pela vida; chegou a hora, afinal, de curar os traumas do passado e encarar a vida de frente.

Em vez de guardar mágoas ou rancores de amores antigos, que tal transformar tais sentimentos em boas amizades ?! Isso te trará mais disposição e ampliará suas chances de começar relacionamentos sadios e perfectíveis.

Evite se isolar do mundo e experimente não ter medo de se entregar ao amor. Se deixe surpreender pela vida, procure exercitar a paciência e a capacidade de compreender aqueles que o circundam.

In suma, um romance pleno e feliz exige ambiente especial para florescer.

(by Silvio Menezes)

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Teu sorriso

Muito racional, vivia na defensiva. Não me permitia amar; mas no fundo procurava um grande amor. Quando, porém, isto se tornava viável, perdia o interesse. Parecia mais fácil e menos doloroso desistir de tudo.

A tristeza me esmagava o coração . . . Era necessário tomar uma atitude e por fim àquela eterna fuga, na constante busca de um amor impossível.

Então, fui impulsivo. Reconheço orgulhoso! Afinal, de que adianta ser jovem se não puder ser impulsivo vez em quando ?!

Passei a observar baleias em Uala-Uala . . . colhi papoulas no Peru . . . ocupei posições subjuntivas nesse mundo de injustiças onde sequer podemos escolher nossos parentes . . . andei tão à flôr-da-pele que desenvolvi atitudes rudes capazes de provocar nas mulheres reações tipicamente masculinas.

E conclui: - preciso de ajuda. Devia haver alguém a quem pudesse pedir socorro. Talvez os neuróticos anônimos . . .

Ainda não conseguia entender como as folhas feridas se curavam no orvalho . . . Já havia, até, perdido a vontade de manter a própria existência, quando esse teu sorriso, mais que suspeito, fez com que a força da vida novamente aflorasce em mim.

Você me convenceu: sou, apenas, um ser sobrenatural que baixou neste plano para experimentar a realidade, estando a sofrer o excesso de viscissitudes disso naturalmente decorrente, para que, vivendo emoções mornas e vazias, extraia o máximo das pequenas coisas.

Só assim pude aceitar, afinal, o fato do meu coração não ter aprendido a bater (ele só apanha), e comecei a ser feliz, pois tornei-me capaz de rir de mim mesmo.
(by Silvio Menezes)