sexta-feira, 2 de março de 2012

O pensamento de Alan Kardec

Em boa lógica, a crítica só tem valor quando aquele que a faz conhece aquilo de que fala.

Zombar de algo que se desconhece, que não se sondou com o escalpelo do observador consciencioso, não é crítica; é fazer prova de imprudência e dar uma infeliz ideia de seu próprio julgamento.

Alan Kardec, em sua obra O Livro dos Espíritos, sustenta que todos os fenômenos espirituais, sem exceção, são consequências de leis gerais e nos revelam um dos Poderes da natureza; Poder  desconhecido, ou melhor, incompreendido, mas que a observação demonstra estar na ordem das coisas.

Assim, o espiritismo é menos sobrenatural que a religião, pois nos ensina que o domínio da Natureza é infinito. Demonstrando a existência e imortalidade da Alma, o espiritismo estimula a fé no futuro, levanta os ânimos abatidos, faz suportar as vicissitudes da vida.

O progresso da humanidade está fundado na aplicação da Lei de Justiça, Amor e Caridade. Dessa lei derivam todas as outras, porque ela encerra todas as condições de felicidade do homem.

O homem, querendo o progresso, estuda os obstáculos e se aplica em destrui-los. Ele só procura o progresso para melhorar sua posição, sem o que o progresso seria sem objetivo. Mas quando tem a soma de prazeres que o progresso intelectual lhe pode proporcionar, se apercebe que não tem a felicidade completa; reconhece que essa felicidade é impossível sem a segurança das relações sociais, a qual só existe no progresso moral. Portanto, pela força das coisas, ele próprio encaminhará o progresso para esse caminho.

Mesmo quem nunca teve testemunho material de manifestação sabe que, além desses fenômenos, há uma filosofia que explica o que nenhuma outra explica. No espiritismo, só pelo raciocínio, ele encontra uma demonstração racional de problemas que interessam muito ao seu futuro; a questão dos fatos materiais é secundária porque só aceitamos como certo o que nos parece lógico.

Seria fazer uma idéia bem falsa do espiritismo crer que ele haure sua força na prática de manifestações materiais. Sua força está em sua filosofia, no apelo que faz à razão e ao bom senso. Longe de se opor à difusão da luz, a quer para todos. Não reclama uma crença cega, mas quer que se saiba porque se crê.

O espiritismo não é obra de um homem. É tão velho quanto a criação. Se encontra por toda parte, em todas as religiões, principalmente na católica - com mais autoridade que em todas as outras, porque nele está o princípio de tudo: o Espírito. Ele mostra o que é, coordena mas não cria nada, porque suas bases são de todos os tempos e todos os lugares.

O espiritismo se apresenta sob três aspectos distintos: o fato das manifestações; os princípios de filosofia e de moral que deles decorrem; a aplicação desses princípios. Daí três graus entre os adeptos:

1. os que creem nas manifestações e se limitam em constatá-las - é, para eles, uma ciência experimental;
2. os que lhes compreende as consequencias morais; e
3. os que praticam ou se esforçam por praticar essa moral.

Os adversários também podem ser classificados em três categorias:

1. os que negam sistemáticamente tudo que é novo ou não vem deles; falam sem conhecimento de causa. Não admitem nada fora do testemunho dos sentidos.
2. os que, conhecendo bem o assunto, o combate por motivos de interesse pessoal. Tem medo das suas consequências.
3. os que encontram na moral espírita uma censura muito severa de seus atos ou de suas tendências. O espiritismo tomado a sério as embaraçaria.

Os primeiros são solicitados pelo orgulho e pela presunção; os segundos, pela ambição; os terceiros, pelo egoísmo.

Mas entre os que compreendem o espiritismo filosófico e nele veem outra coisa além dos fenômenos mais ou menos curiosos, há outros efeitos. O primeiro, e mais geral, é desenvolver o sentimento religioso, mesmo naquele que, sem ser materialista, só tem indiferença pelas coisas espirituais.

O segundo efeito, quase tão geral quanto o primeiro, é a resignação nas vicissitudes da vida; as atribulações da vida terrena já não os aflige tanto, em virtude da visão mais elevada que adquire.

O terceiro efeito é exercitar a indulgência pelas faltas alheias, através do sacrifício do egoísmo.

Em O Livro dos Espíritos, Alan Kardec nos exorta a julgar os espíritos pela pureza dos seus ensinamentos; não podemos esquecer que entre os espíritos há os que não puderam ainda despojar-se das ideias da vida terrestre. Precisamos distingui-los pela linguagem, julgá-los pelo conjunto do que dizem, vendo se há encadeamento lógico em suas ideias. Se nada neles revela ignorância, orgulho ou malevolência, se suas palavras estão sempre marcadas pelo selo da sabedoria, então são verdadeiramente superiores.

Se nosso mundo fosse inacessível ao erro, seria perfeito. Mas está longe disso. Estamos ainda aprendendo a distinguir o erro da verdade e necessitamos das lições da experiência para o exercício do nosso julgamento. Os bons espíritos só pregam a união e o amor ao próximo; jamais um pensamento malévolo ou contrário à caridade pode vir de uma fonte pura.

A razão deve ser o supremo argumento e a moderação assegurará melhor o triunfo da verdade que a crítica envenenada pela inveja ou pelo ciúme.

Para além disso, devemos lembrar sempre que os espíritos falam a linguagem compreendida pelas pessoas que os interrogam. Quando essas pessoas estão muito imbuídas de certas ideias eles não as contestam para não melindrar suas convicções; por exemplo, se um espírito disser, sem precauções oratórias, a um muçulmano que Maomé não é um profeta certamente será muito mal recebido.

(by Silvio Menezes)
Leitura sugerida: "O Livros dos Espíritos", de Alan Kardec